E eis que domingo a noite eu vou parar no hospital com dor de ouvido. E começo dando rata… ouço um médico chamar meu nome e vou feliz atrás dele… era outra Mariana. Voltei pra sala de espera com cara de tacho e lá fiquei com o ouvido zunindo. Nisso, aparece um cara com uns 40 anos, senta do meu lado e começa a falar, falar e falar… que ia chover, que o tempo andava muito quente, que ele morava ali perto e que se demorasse mais um pouco teria tomado chuva(realmente, tinha começado a chover logo após a infeliz chegada dele). Meu ouvido começou a latejar dois minutos após ele entabular conversa… e o homem não parava… reclamava com o filho que estava ali. O garoto devia ter uns cinco anos, parecia estar com catapora e era hiperativo; mexia em tudo, cismava de ficar abrindo e fechando a porta de vidro que dava pro corredor do atendimento, atormentava o segurança… e o pai só reclamava, enquanto a mãe, que apareceu do nada, fazia aquela cara de resignação de mãe de criança atentada… “Ele é assim mesmo…”
A meia hora que passei na sala de espera me pareceu uma eternidade infinitamente irritante. Quando comecei a perder a paciência por conta da dor e do falatório, um médico apareceu e chamou. Agora sim, a Mariana certa.
O doutor era um moço novo, uns três anos mais velho que eu, no máximo. Cara de recém-formado, franzino, muito branco, cabelos claros, olhos muito azuis e boca carnuda – uma graça e extremamente educado.
- O que você sente?
- Váaariooos lugares inflamados ou infeccionados, doutor. Mas só o ouvido… (pausa para olhar a mão e ver qual é a direita/esquerda) … direito dói. E eu tou meio surda desse lado.
- Hm. A mocinha andou cutucando o ouvido com cotonete? Andou nadando? Piscina? Praia?
- Não, minhas ites atacaram mesmo… acho que deve ser conseqüência disso.
- Ahh. Vou examinar sua garganta e os ouvidos.
(e aí eu fiquei com a bocona aberta… e depois ele usou aquele aparelho pra ver o ouvido que eu não sei o nome, mas acho suuuper legal)
- Olha, você não tem nada na garganta e nas amígdalas. O ouvido esquerdo também tá legal, só o direito que tá um pouco inflamado mesmo. Vou te passar um remedinho pra pingar e só.
(E aí ele fez toda uma explanação sobre o ouvido e tal… e eu só pensava: Ãrrã… doutor, o negócio é o seguinte: eu tenho uma inflamação generalizada no sistema respiratório, entendeeee? E o ouvido é a última etapa… remedinho não vai adiantar, me dá alguma droga possante pra dor, pelamordedeus!)
- E se doer?
- Toma dipirona. Mas não deve doer, não.
(fiz cara de incrédula, sempre que meu ouvido ameaça de doer, invariavelmente vou parar no hospital no meio da madrugada chorando de dor)
- Tudo bem.
- E nada de cutucar o ouvido com cotonete, viu? É pra pingar e colocar algodão por cinco dias e só.
- Tá, não vou cutucar.
(Nessa hora me deu um estalo básico de dizer que voltaria ali no meio da madrugada chorando e querendo pegar ele pelo pescoço… mas sou uma pessoa contida e respirei e contei até 10)
E fez as últimas recomendações, eu agradeci e saí da sala… passei pelo corredor e pela sala de espera praticamente correndo, não queria dar de cara com o moço incômodo do filho hiperativo. Ainda chovia e pra comemorar, saí na chuva até o carro… passei na farmácia e comprei o remédio… cinco reais… na hora em que o atendente me disse o preço, quase dei risada… um remédio de cinco pilas não deve fazer efeito nenhum, mas paciência…
Cheguei em casa ensopada e com uma dorzinha amena. Tomei banho, pinguei o remédio, fui deitar e ver tv. E na medida em que as horas foram passando, a dor foi se tornando quase insuportável. Amaldiçoei o médico bonitinho e tomei dois anti inflamatórios cavalares. Meia hora depois, estava sem dor e dormindo. Não podia ter sido melhor pra um final de domingo…



